Apresentações: medo de ter medo

Há muitos anos, um mestre segurou minhas mãos e me disse que o medo nos faz ver fantasmas onde não existem. Entrar em um quarto escuro pode ser aterrorizante: basta “enxergar” dentro dele uma figura ameaçadora em um prosaico casaco pendurado no espaldar de uma cadeira. Mas só sabemos disso se acendermos a luz e reconhecermos a realidade como ela é.

Tenho observado ao longo de anos de trabalho que, para enfrentar os nossos medos, basta acender dentro de nós a luz que foi apagada em algum momento da vida por mãos invisíveis e criou ambientes sombrios no nosso inconsciente, como certas palavras ouvidas no meio familiar, no círculo social ou nos ambientes de trabalho, que diminuem e minam a nossa autoestima, e dão forma às figuras que bloqueiam a nossa criatividade e o nosso sucesso.

Enquanto isso, um mundo altamente competitivo nos empurra para desafios que vão desde a busca de trabalho à conquista do par amoroso, com um discurso tirânico de perfeição e assertividade. Mais de duas décadas treinando pessoas na área da comunicação me permitem dizer que o monstro do quarto escuro engole todo tipo de pessoas, que por desconhecerem a própria luz deixam de dar valiosas contribuições aos grupos a que pertencem ou mesmo se tornar profissionais competentes e dedicados.

Percebo também que antes de desenvolver a habilidade de falar em público, essas pessoas precisam ser conduzidas para dentro de si mesmas para descobrir suas potencialidades, seus dons e talentos atrofiados pelo medo e suas variantes. Autoimagem negativa, excesso de autocrítica, mensagens de menos-valia, insucessos na vida pessoal e profissional, falta de treino ou de conhecimento sobre o assunto são algumas das inúmeras caras do medo que se transformam em armadilhas perversas para uma carreira promissora. Sem saber como lidar com essa cadeia de forças paralisantes, o indivíduo abre as portas para a frustração, a desmotivação e a autossabotagem. Assim está montado o círculo vicioso que o impede de ser mais!

Ser mais não é ser perfeito, não é ter as melhores histórias ou ser o mais belo do quarteirão. É, antes, empenhar-se para descobrir que voz é essa que insiste em dizer que o seu lugar é nos bastidores e não sob os holofotes; que a timidez é incurável; que a platéia vai rir de você; que fala boa é a do âncora do telejornal; que inteligente é o Bill Gates… E você não passa de uma caricatura malfeita. De onde vem essa voz? Ela é sua ou foi alguém que escreveu esse texto e você assinou embaixo?

O que tenho observado ao longo das extensas horas de treinamento é que o medo não é exatamente do microfone, da câmera ou do PowerPoint. Com alguns exercícios e certas dinâmicas de grupo até o mais tímido se aventura a assumir um lugar no centro; o mais nervoso aprende a respirar e a controlar sua instabilidade; o mais debochado (que assim disfarça a sua insegurança) passa a ouvir e a colaborar; o tremor das mãos e a secura da boca são vencidos por gestos de confiança e discursos mais claros. Maravilhados, todos descobrem que onde antes se movimentavam às cegas, a luz começa a revelar novas trilhas e pequenas clareiras para repousar do cansaço que o medo gerou.

Mas sabemos que o fantasma não é coisa que se espante com exorcismos, dentes de alho ou um dia de integração na empresa. Ele tem uma incrível capacidade de dar meia-volta… e nos aprisionar outra vez. O chefe de cara amarrada, a nova namorada, a mudança de cargo, o bebê que não estava nos planos, a perda de um ente querido, um casamento que não vai bem, tudo pode ser uma porta aberta para deixar entrar o vampiro de dentes afiados. E o pescoço mais próximo, claro, é sempre o seu, caso os valores positivos que começaram a ser construídos ainda não estejam fortalecidos.

Se não há magia nem milagre que nos façam amanhecer belos, charmosos e falantes, só nos resta trabalhar para alcançar a excelência pessoal. E é muito trabalho! Primeiro tire o lixo emocional amontoado nos espaços sombrios que sufoca e contamina. Feita a faxina, que sempre requer a ajuda de um terapeuta, um coach ou outro profissional que conduza o processo de autoconhecimento, surge o que há de melhor.

Prepare-se: focando os conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para a excelência na comunicação e nas relações interpessoais. Organização e planejamento promovem autocontrole e autoconfiança.

Crie um plano de ação: estabeleça as metas e as etapas de trabalho, sistematize idéias e estratégias pessoais.

Fortaleça a auto-estima: todos são merecedores de respeito e crédito do meio em que atuam. A maneira de ver a si mesmo e um trabalho constante de valorização dos pontos fortes contribuem para o equilíbrio.

Resgate imagens mentais positivas: atitudes mentais positivas atraem ouvidos receptivos. Antes de uma exposição sintonize-se com fatos agradáveis e sentimentos prazerosos.

Responsabilize-se pelo sucesso: o medo não permite que se assuma a responsabilidade pelo próprio sucesso. A maturidade psicológica e emocional ajuda a avançar nos processos de liderança e na construção de uma carreira.

Permita-se errar: treinar, acertar e errar é o tripé que sustenta as habilidades. É por tentativa, erro e correção que se alcança mais qualidade e segurança nas relações com o mundo.

E aquele quarto escuro com pequenas clareiras se transforma em um salão iluminado, amplo o bastante para treinar os passos que o levarão a transpor as fronteiras de si mesmo e ampliar os seus horizontes.