Desconstruindo o não

Quem entra no site oficial de Gisele Bündchen fica sabendo que a bela ouviu muitos “nãos” até se consagrar como a mais poderosa top model do mundo. E que Albert Einstein chegou a ouvir de um dos seus professores no ensino secundário que ele nunca serviria para nada. Se essas personalidades que inscreveram seu nome na história tivessem dado ouvido às vozes externas, o mundo certamente seria mais pobre em beleza e cultura científica.

Foi esse raciocínio rápido que suscitou uma interessante discussão em um dos meus grupos de treinamento, quando um dos participantes se declarou irremediavelmente tímido e sem condições de levar adiante a proposta de trabalho daquele encontro. Percebi, então, que o papel do instrutor ia além de aplicar técnicas para desenvolver naquelas pessoas o desembaraço e a segurança necessários para fazer apresentações em público.

Intuitivamente, e talvez com base no que observei em grupos anteriores, soube que era o momento oportuno de levar ao grupo um pensamento de Eleanor Roosevelt: “Ninguém pode fazer você se sentir inferior sem o seu consentimento”. Tamanha verdade traz uma reação imediata: encontrar respostas que afastem de nós a responsabilidade por esse sentimento.

E voltei à insegurança dos tempos de minha adolescência, quando um corpo magro e alto me tornava diferente e esquisita, se o padrão fosse as meninas da escola e do meu círculo de amigas. Andar com os ombros curvados e baixar os olhos ante qualquer situação decisiva passaram a ser atitudes que assumi, sem que ninguém tivesse me condenado a tanto. Ser menor, encolher-me diante do que a minha natureza biológica tinha determinado, era uma escolha minha.

Hoje, após de tantos anos estudando e lidando com o comportamento de pessoas únicas em sua expressão humana, me dou conta de que lá, naquele ponto de minha história, definiu-se se eu seguiria cabisbaixa ou se olharia a vida de frente. A extraordinária vontade de desbravar mundos, a inesgotável sede de conhecimento e a ambiciosa perspectiva de independência cultural e financeira foram alongando minha coluna até meus ombros alcançarem a altura do meu potencial. Na retaguarda, como um guardião a reerguer minhas asas a cada vez que elas tendiam para baixo, estava meu pai, a dizer que eu era uma menina com estrelas nos olhos. Eu não poderia ter como meta nada menos que o horizonte ilimitado.

Juntei a militância de Eleanor Roosevelt à persistência de Gisele Bundchen e à pesquisa de Albert Einstein, e resumi o desafio que os seres humanos de todos os tempos e lugares enfrentam no desenvolvimento de seu corpo emocional e social. Uns porque cresceram além do modelo da sua sociedade, outros porque fugiram dos padrões escolares rígidos, e tantos porque foram açoitados pela palavra cruel de quem não soube respeitar e incentivar seus esforços para ser uma pessoa melhor.

E por vezes crescemos envergonhados da nossa natureza singular, que faz de nós peças originais de um imenso painel humano de tons e sobretons. Mas não entendemos essa singularidade, não nos convencemos de que sem a nossa presença e energia o painel seria, certamente, pobre, sem graça, falso. Nossas convicções, que nos mais tímidos são como gotas de cristal, se fragilizam diante do discurso exigente de certos sistemas que privilegiam o belo, o sarado, o bem-falante.

O efeito pode ser perverso, até danoso em personalidades mais tímidas e carentes de auto-estima.  Como um grande olho a espreitar o primeiro deslize de quem se expõe para uma platéia, um chefe ou um amor, as vozes da menos-valia, vindas de fora ou nascidas do eu profundo, podem sobrepor-se à outra que impede de nos sentirmos inferiores. E deixamos cair por terra, às vezes por causa de uma única palavra, comentário ou gesto o valor de ser exatamente o que somos: seres em construção permanente e honesta.

E, assim sendo, um dia acertamos. No outro erramos. Ou temos a oportunidade de nos rever, de nos recompor. E sempre haverá tempo para correr atrás dos pedaços desgarrados que nos foram arrancados por mãos maldosas ou abandonados por nós mesmos, quando não nos julgamos tão perfeitos quanto os outros (a sociedade, a família, o grupo social, a cultura de uma época) esperam que sejamos. Meu aluno naquele grupo de treinamento não perdeu uma palavra da viagem para dentro de mim mesma. Eu sabia que não poderia levá-lo a dimensões tão profundas, porque esse era um território meu. Ele teria que empreender sua própria jornada, assim como tenho feito, pois é essa a tarefa que nos cabe. Mas acredito ter despertado nele a curiosidade e transmitido a responsabilidade de rejeitar o rótulo de inferior, qualquer que fosse a sua origem.

E ainda dei uma pista do que iria encontrar na caça ao tesouro em seu interior. Aqueles pedaços que se desgarraram guardam as células que darão origem aos reis e rainhas que governarão o nosso vir a ser. Nada menos que reis e rainhas, se nos empenharmos.