Emancipar-se dá trabalho

Quando terminei a faculdade de Letras em Ribeirão Preto, eu e outras cinco amigas viemos para São Paulo. Lembro-me claramente do medo que sentíamos. Lamentávamos a falta do abraço, a segurança da família, o olhar protetor de pessoas que nos amavam. Não tínhamos o direito de reclamar desse sentimento, pois não nos perdoaríamos se voltássemos covardemente. Era proibido deixar a dor ganhar espaço. Assumimos uma força que ainda não pensávamos ter, uma secura de alma para suplantar a fragilidade e o apego.

Era uma de decisão irrevogável, cuja única saída possível era o processo de emancipação. Deixávamos a custódia paterna por um caminho que ainda não sabíamos se valeria à pena. Não havíamos nos mudado por virtude, mas sim por uma necessidade de pegar nossa vida nas mãos e ser agentes do nosso destino. E não nos arrependemos! Mas muitas vezes a vontade de voltar era imensa… Voltar e deixar que nossos pais escolhessem por nós, não ter que tomar decisão nenhuma, aquietar no clima amoroso que nos protegia…

Alternativa

Textos filosóficos e psicológicos afirmam que há um constante embate interior entre a autonomia e a submissão. Trazer para a comunicação interpessoal o espaço da submissão dá menos trabalho: por alheamento, comodismo, displicência e, às vezes, por motivos inconscientes, delegamos a alguém responsabilidades que são só nossas. Preferimos nos escudar na família e ficar grudadas a ela, proteger-nos sob o guarda-chuva de quem nos parece mais preparado, mais proativo. Esquecemos até dos sonhos. Preferimos a aridez de uma vida sem anseios, a garantia da mera subsistência. Em nome de um pouquinho de vida perdemos toda a existência, sem pensar muito, sem sofrer muito, sem realizar quase nada.

No século passado, o escudo eram os pais e tutores, depois o cetro passava para o marido, e a maioria das mulheres, mesmo infelizes, seguia seus homens como se fossem apêndices. E os homens nem sempre sabiam o que fazer com elas, que para tudo lhes pediam opinião. Eles davam respostas a perguntas que não conheciam. Sofriam a pressão da responsabilidade em excesso e muitas vezes desprezavam suas mulheres pela menos-valia. Esse processo não terminou. Em muitos núcleos familiares ainda imperam as relações truculentas, nas quais a mulher persevera em seu papel de vítima eterna, de rainha / escrava do lar, muitas vezes analfabeta na cabeça e no coração, vivendo um estado de quem não atingiu a maioridade e não é capaz de falar o que pensa e escolher o que quer.

Ainda hoje, muito mais preparadas para uma vida autônoma, nós, mulheres, submetemo-nos à escolha de pretensos príncipes encantados que romanticamente nos darão uma vida povoada de sonhos. O complexo de Cinderela sobrevive pela ânsia de ser cuidada por um provedor afetivo e, como a competição é árdua e o número de homens, cada vez menor, se aparecer um interessado, o fato de ser escolhida provoca uma abertura exagerada que não pede cep, rg, curriculum vitae. Parece mais fácil embutir o espírito crítico, engolir sapos e afogar-se no auto-engano.

Família e Trabalho

E isso não acontece só dentro da esfera familiar, mas também na vida profissional. É mais fácil entregar a vida a líderes / tutores que prometem nos abrigar, e por comodismo, para não ter que fazer mais escolhas, delegamos ao outro o controle da nossa atividade profissional. E assim nos permitimos ser tuteladas durante anos. Os líderes / tutores gostam desse papel, que lhes dá mais poder.

Também é mais fácil entregar-se cegamente às seitas diversas que nos prometem a felicidade eterna. É mais fácil se deixar controlar por pessoas aparentemente mais fortes que sentem prazer em manipular mentes indefesas.

Embora seja doloroso o processo de mudança, cada um deve escolher seu próprio caminho. A emancipação é um processo humano de busca da liberdade em relação a qualquer tipo de vínculo religioso, político, econômico etc., que impeça a realização plena. É preciso tomar atitudes corajosas para que a auto-estima se fortaleça e não deixe que a covardia e a preguiça moral sejam o enredo da nossa história. A partir daí, basta aprimorar as habilidades e não se conformar com o que não é bom nem positivo para um espírito livre para pensar, opinar e decidir o que é melhor para si.

O conhecimento fortalece, as habilidades preparam e as atitudes nos tornam mais ousados e criativos. Dentro de nós habitam nossos pais – podemos ser pais de nós mesmos. Dentro de nós habitam nossos tutores – podemos decidir por nós mesmos. Dentro de nós habitam a vontade, a coragem e o bom senso – podemos ser autônomos conscientes. Não adianta buscar um guardião para nossa vida. A chave sempre estará conosco. Dá trabalho? Sim, mas é uma conquista que nos emancipa e permite gerenciar a nossa própria vida com muitas possibilidades de sucesso. Isso não tem preço!

Para saber mais
1- Dicionário de Filosofia – Nicolas Abbagnano, editora Martins Fontes 2007
2 – Revista Filosofia – Artigo “Subjetiva Razão”- Márcio Gimenes de Paula