“Gogó de Ouro”

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Ele se diz um artista plástico. Sua obra não emociona, não toca, não subverte. Mas assim ele se considera e consegue expor nas mais badaladas galerias.

Ele chega de mansinho, como um felino. E com uma voz aveludada, estilo locutor de FM, sabe falar bem, tem bom vocabulário, boa ênfase, usa boas imagens, frases surpreendentes, ideias criativas é, enfim, um orador sofisticado. Deve ter lido muito sobre como encantar as pessoas, principalmente as mulheres. Finge ouvir seu interlocutor, mas tem sempre uma frase de efeito, uma informação inesperada. Quando fala do seu trabalho, usa jargões artísticos e entremeia seu discurso introduzindo na pauta as pessoas que conhece, das quais se diz amigo. Claro, somente famosos. Isso dá um sabor especial à conversa.

Ele gosta de chegar perto para conversar. Fala sussurrando, para impressionar. Toca no corpo do interlocutor, mas sem invadir. Ele conhece as regras do jogo. Marca um encontro com a mulher ao lado… que parece ter dinheiro. Certamente ela aceitará o convite, isso é claro em sua expressão. Outra a cair na teia!

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Ele é estrangeiro, e no aeroporto encontra aquela que diz ser a mulher da sua vida. Moça inteligente, espirituosa, bem-sucedida, respeitada e amada em seu círculo social. Mulher solteira e independente. Ele fala macio, um sotaque delicioso, diz ser um grande empresário, um exportador bem-sucedido. Tem planos grandiosos, a miséria não tem lugar na sua vida. Logo de cara a convida para acompanhá-lo em viagens internacionais. Dá presentes da Victoria Secret, perfumes famosos, parece ser o príncipe encantado das Arábias, e ela, a princesa dos sonhos. As promessas de amor são testemunhadas o tempo todo pelos poucos amigos que restam.

Seis meses depois ele se muda para a casa dela. Os retratos dos amigos desaparecem das paredes, ela não recebe mais visitas, é como se jogasse fora a vida anterior. Ele tem ciúme de tudo, algumas vezes chega a ser violento. Mas o amor compensa tudo. As palavras dele cicatrizam feridas. A solidão dela acabou. As chances de um casamento feliz se anunciam. Ele insiste em que tenham filhos e ela, maravilhada, também os quer.

Logo eles se tornam sócios, compram um carro caríssimo, no nome dela, naturalmente. Alugam uma sala para montar um escritório, no nome dela, naturalmente. Fazem programas caros, que ela banca, naturalmente. Aos poucos, ela vai assumindo os compromissos dele, paga as contas, endivida-se. Por pouco não perde o apartamento conquistado com tanta determinação, tanto esforço.

A família se preocupa, os amigos percebem-na mudada, algo parece estar muito errado nessa pretensa história de amor. Um advogado é contratado, e logo se descobre que o sapo já aplicou vários golpes, tem três identidades, procura sempre mulheres solitárias e que a sua conversinha já lesou muitas vítimas.

Eis aí dois exemplos clássicos de como a comunicação mal intencionada pode ser cruel. Por trás de cada golpe há sempre uma boa comunicação, a comunicação com o intuito de manipular. É a comunicação recheada de belas palavras, mentiras bem contadas, frases bem elaboradas, bonitas figuras de linguagem, tudo embalado por uma sonoridade vocal que penetra no coração dos incautos como se fosse música, e uma linguagem corporal impecável. É a composição perfeita de um crime moral e financeiro que pode causar danos irreversíveis.

Quem nunca passou, em maior ou menor grau, por esses dissabores? Quem nunca foi ludibriado por esses “gogós de ouro”? Mas não nos enganemos: somos todos igualmente responsáveis. Na maioria das vezes, são as nossas carências que falam mais alto e pagamos qualquer preço por um pouco de afeto. Mas essas experiências podem nos fortalecer, refinar o autoconhecimento, a percepção que temos do outro, para podermos perceber o que há por trás das palavras e dos gestos corporais e repelir esses estelionatários emocionais. Não nos tornemos vítimas dos “171” da comunicação.