Invejar pode ser bom

Cena: Outro dia, em uma reunião de mulheres em minha casa, uma amiga fez uma pergunta que me pareceu ao mesmo tempo instigante e perigosa: o que invejamos umas nas outras? A pergunta causou constrangimento. Olhares baixos, risos, dissimulação, desconforto… Mas eis que chega a frase salvadora: uma das mulheres começa a dizer o que invejava em algumas de nós ali presentes. Esse início corajoso fez com que, aos poucos, o clima se desanuviasse e cada uma passasse a revelar as qualidades das demais que gostaria de ter… Falou-se da beleza de uma, da facilidade que outra tinha para escrever ou para criar, ganhar dinheiro, do carisma e das habilidades sociais de outra, da simpatia e a atração que a outra causava nos homens… E foi tudo tão natural que uma das mulheres reclamou, zangada: “E eu? Ninguém vai falar nada de mim? O que vocês invejam em mim? Não há nada em mim para ser invejado?” Estávamos ali, as sete mulheres, nos expondo e de alguma maneira deixando que nossas zonas de sombra fossem escancaradas. Foi um momento terapêutico e de muita cumplicidade. Desabafar era uma maneira legítima de encarar o monstro de olhos verdes da Inveja.

Preconceito

E você, algum dia já se sentiu frustrado porque um colega de trabalho conseguiu a posição que tanto almejava? Já se questionou por que seu amigo, com menos instrução, conseguiu consolidar um patrimônio financeiro e você, com tanta experiência e estudo, não tem sequer casa própria? Já se surpreendeu imaginando-se vender parte da sua inteligência para conquistar mais beleza física e magnetismo pessoal? Já se sentiu enciumado em uma festa só porque sua mulher brilhou mais que você, mostrando-se comunicativa e cativante?

Se já sentiu algo parecido, não se desespere! A Inveja  é um dos sentimentos mais comuns aos seres humanos. Seja bem-vindo ao mundo dos normais!

Mas por que a Inveja costuma ser tão constrangedora? O preconceito contra a inveja é milenar! Nossa cultura familiar e religiosa estabelece como crença e valor que a Inveja é um sentimento que deve ser negado por ser uma Sombra, uma anomalia social. Na tradição judaica, a inveja é pior que a morte, pois se permitirmos que se instale em nós, será como veneno correndo nossas veias!

Experimente em um bate-papo informal dizer que sente inveja do diretor da sua empresa. Você corre o risco de ser alvo de fofocas e ficar isolado do grupo por ser considerado um elemento “perigoso” na organização. Essa pressão psicológica causa um sentimento de culpa por invejar o poder do outro. É como se fosse uma ameaça dolorosa à nossa auto-estima e às qualidades inerentes a um homem de bem.

Nenhum sentimento, por si só, é bom ou ruim; tudo depende da maneira como é vivenciado. Há uma diferença entre a Inveja autodestrutiva e a Inveja produtiva. A primeira é a arma dos incompetentes, está ligada ao prazer pelo insucesso do outro; é um sentimento que provoca conflitos internos e corrosivos, cuja única ocupação é maldizer o sucesso do outro, que se torna refém da nossa raiva, do nosso ódio. O segundo tipo é a inveja bem gerenciada, que consegue nos tirar do comodismo e nos impulsionar para uma competição mais saudável e a enfrentar desafios.

A inveja é destrutiva quando

  • Você acha que só o outro tem qualidades a serem admiradas;
  • É um espectador passivo do sucesso alheio e refém da própria inveja;
  • Canaliza a própria energia para destruir quem possui aquilo que ambiciona;
  • Perde tempo, deixando de viver plenamente e bloqueando os próprios talentos;
  • Enche a mente com o lixo que fragiliza;
  • Tem desejos e nada faz para realizá-los;
  • Destrói os próprios sonhos por impedir que eles se realizem.

A Inveja improdutiva e perniciosa gera ressentimentos e um profundo pessimismo existencial, consequências do complexo de inferioridade e da auto-imagem negativa.

A inveja é construtiva quando

  • Afasta nossos véus internos
  • Serve de espelho para a autoanálise sem risco de enganar a si mesmo;
  • Não sofre pelo sucesso do outro;
  • É um elemento propulsor da mudança;
  • Estimula o crescimento pessoal através do autoconhecimento;
  • Equilibra as relações interpessoais;
  • Cria movimentos de empatia;
  • Aproxima de quem admiramos;
  • Incita à luta para conseguir aquilo que se quer.

Sugestões

É possível reescrever o roteiro final de um filme que poderia se chamar A Inveja e suas Sombras com um final mais criativo e enriquecedor. Para transformar a Inveja em um fator positivo:

  • Faça uma autoanálise e procure avaliar seus sentimentos sem preconceitos;
  • Olhe para si com compaixão e aceite que ninguém está imune ao vírus da inveja, que é inerente ao ser humano;
  • Procure ajuda terapêutica;
  • Reconheça a inveja como um fator de crescimento quando ela ajuda a realizar os desejos;
  • Analise racionalmente: o objeto da minha inveja pode ser conquistado? O que devo aprender? Que habilidades preciso desenvolver? Que atitudes devo ter para viabilizar meus objetivos?
  • Não use a Inveja como desculpa para a inércia;
  • Não reprima a inveja, mas procure entendê-la e usá-la como trampolim para a criatividade;
  • Não sofra com o sucesso alheio. Use melhor seu tempo e sua energia. Defina estratégias para atingir seus objetivos;
  • Não tenha vergonha de perguntar às pessoas que admira o segredo do sucesso delas;
  • Reconheça as suas habilidades que devem ser exploradas e valorizadas;
  • Direcione seus talentos e suas habilidades em benefício próprio;
  • Tenha coragem de admitir e corrigir suas falhas;
  • Avalie constantemente os resultados alcançados.

Ninguém precisa ser um eterno voyeur rancoroso do sucesso alheio, nem se colocar na posição de vítima abandonada pela sorte. A Inveja pode ser um caminho para o autoconhecimento quando ela aumenta o nosso comprometimento com a autorrealização e um estilo de vida mais produtivo.

“INVEJAR NÃO É PECADO; PECAR É ENTRAR EM UM DESTRUTIVO JOGO DE PODER EM QUE NÃO HÁ VENCEDORES!”

Sugestões de livros:

  • A inveja criativa – Carlos Amadeu Botelho Byinton – Ed. Religare
  • A Cabala da Inveja – Nilton Bonder – Ed. Imago