Meu amor pelos livros

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
“Trouxeste a chave?”
(Carlos Drummond de Andrade)

Meu amor pelos livros e pelas palavras começou quando eu era criança. Meu pai lia histórias para mim, fazendo as vozes dos bichos e dos personagens, e eu adorava, era tudo muito divertido. Ele praticamente me alfabetizou, interpretando as histórias que eu pedia para repetir mil vezes. Se ele mudasse uma vírgula, eu dizia que não era assim,  queria ouvir a história certa… Eu me acostumei a vê-lo sentado na cadeira de balanço lendo uma revista mensal chamada Seleções, onde havia uma coluna chamada “Meu tipo inesquecível”. Ele a lia para mim e pedia que eu explicasse o que tinha entendido. Talvez aí eu tenha começado a dramatizar o que ouvia. Talvez essa experiência tenha despertado em mim o gosto pela leitura, pela conversa e pelo teatro. Talvez tenha escolhido aí a profissão que exerceria na vida adulta.

Meu pai dizia que quem gosta de ler nunca está solitário. Dizia que os livros aquecem a alma, dão mais sabor à vida, e nos permitem conhecer o mundo, mesmo vivendo em uma cidadezinha afastada. Ele dizia que os livros nos transformam, nos tornam mais atentos aos movimentos da vida e deixam tudo mais colorido.

E tudo ficou mais colorido mesmo, quando um dia um caminhão de mudança parou na minha rua. Uma nova família veio se instalar na casa mais bonita do bairro. A casa tinha varanda, jardim, porta de vidro e era enorme… Do caminhão saíram o pai, a mãe e a filha, uma menina bem pequena.

De repente, algo despertou mais ainda a minha curiosidade. Os homens do caminhão descarregaram uma montanha de livros azuis, pretos, brancos… Eu nunca tinha visto tantos livros juntos. Podia sentir o cheiro deles entrando no meu corpo. Foi uma emoção muito grande ver tanto conhecimento ali amontoado.

Minha família se aproximou dos novos vizinhos, e a dona da casa praticamente me adotou. Eu ia à casa deles ajudar a filha nas lições de casa, mas o que eu queria mesmo era ter a oportunidade de chegar perto dos meus objetos de desejo, os livros, que me esperavam como amantes ansiosos…

Um dia, me armei de coragem e pedi: “Dona Cidinha, a senhora me emprestaria um livro para ler?” Ela concordou, e meio trêmula eu escolhi um livro de capa azul sobre fadas, príncipes e bruxas horríveis. Estabeleceu-se aí um ritual: todos os dias eu entrava na casa, me sentava a um canto da sala e ficava lendo durante horas… Se me convidassem para almoçar, era ainda melhor. Eu adorava comer bacalhoada, que minha mãe nunca fazia, e beber refrigerante em dia de semana… Mas havia uma regra: eu não podia levar os livros para casa. Por isso a despedida era ruim, já me deixava ansiosa, pensando nas aventuras que eu havia deixado pela metade…

Após mais ou menos seis meses, dona Cidinha disse: “Você cuida bem dos livros. Não faz orelhas, não molha o dedo com saliva para virar a página… Por ser tão cuidadosa e responsável, pode levar um livro por vez para ler na sua casa.

Beijei o rosto de dona Cidinha, peguei o livro e saí correndo para dar a notícia a meu pai. Eu chorava de alegria. Não queria os livros para mim; só queria lê-los, e saber histórias que eu desconhecia. Queria aprender mais, saber que o mundo ia além da cidade em que eu vivia. Pela primeira vez eu me senti adulta. Há um conto da Clarice Lispector, Felicidade Clandestina, que fala sobre essa emoção de correr com o livro nas mãos e poder ficar com ele inteirinho. Eu tinha a sensação de ter conquistado a confiança daquela família, que não imaginava o bem que me fazia ao emprestar-me os livros. E ao dar-me a oportunidade de ler os Tesouros da Juventude, aquelas pessoas ajudavam a abrir a minha vida para o mundo!

Mais tarde, tive a sorte de ter uma querida professora na escola secundária, a Ely, que me apresentou os clássicos da literatura: José de Alencar, Machado de Assis, Jorge Amado, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa. Ela me ensinou a dialogar, a perscrutar o mundo, e despertar para o novo. Ensinou-me que a literatura abre portas e que os movimentos literários estão ligados diretamente aos anseios de um povo. Ela me ensinou que as palavras têm cor, têm cheiro e têm sabor, e que a cada segundo precisamos delas.  A palavra qualifica, explica, define, questiona, impulsiona, fere, difama, destrói, elogia, condena, abençoa, valoriza. Através da palavra e da leitura aprendemos a nos conhecer e a conhecer o outro, um espelho que nos dá a possibilidade de uma vida mais rica, multidimensional. Ely ensinou-me também que somos o que lemos, o que compartilhamos em atos de generosidade, num processo que não tem fim.

Serei grata para sempre a essas pessoas que me mostraram um mundo com muitas esquinas, mas em cada uma delas escondida a possibilidade de um aprendizado!

Hoje, se nos treinamentos alguém pergunta: “O que se deve fazer para aprender a se comunicar melhor?”, Eu respondo: “Leia, leia, leia… Aprofunde-se e se aproprie das palavras. Se você ainda não gosta de ler, mas gostou de um filme, compre o livro que inspirou o filme, vá às livrarias com sala de leitura, passe umas horas lá dentro, peça ajuda ao vendedor, pegue nos livros, leia as orelhas dos livros, visite sebos. Não se impressione com o cheiro de bolor, é cheiro de história! Dê livros de presente, estimule a leitura na sua casa. Essas atitudes mudam para melhor a sua vida e a vida de quem você ama!

Leia! Há um mundo novo esperando por você!