Seus filhos só têm uma infância *

Nos seminários que organizo sobre comunicação verbal, sempre tem participante que me pergunta: “O que devo fazer para que meus filhos sejam bons comunicadores?” Muitos profissionais que são considerados excelentes líderes na área empresarial, cobram-se uma participação maior na educação dos filhos. Segundo eles, o trabalho consome muita energia e ao chegar em casa só o que resta é cansaço e alheamento. As crianças aprendem também por imitação, e se não tiverem um ambiente afetivo e favorável para a maior proximidade com a família, a comunicação ficará distorcida e até  bloqueada.

Para o psicanalista francês Jacques Lacan, o olhar da mãe é o primeiro espelho da auto-imagem da criança. Desde que nasce o ser humano precisa se sentir-se incluído, sentir-se importante, para construir uma autoimagem positiva. A autorrejeição e autoaceitação podem partir da matriz do olhar maternal, e mais tarde, a ausência do olhar afetivo e individualizado poderá causar sérios distúrbios de comportamento.

Crianças que são valorizadas em suas conquistas provavelmente serão adultos mais autoconfiantes, dispostos a ações positivas para superar limites. O inverso poderá causar uma sensação de fragilidade interior e, consequentemente, maior dificuldade para administrar as frustrações.

O que é possível fazer para facilitar o processo comunicativo na educação dos filhos?

  • Evite frases castradoras, como “Cale a boca, você só fala besteira!; Você é um incompetente! Não presta prá nada mesmo!; Pare de gaguejar!; Por que você não é igual ao seu irmão?; Com essa timidez, você não chegará a lugar nenhum!; Você jamais vai aprender matemática; Você é um desajeitado; faz tudo errado.” Use os erros da criança como uma oportunidade para aprendizagem. Corrija, mas não a ridicularize.
  • Dependendo da maneira como a criança absorve essas frases humilhantes, ela pode assimilá-las como verdadeiras e passar a vida, para provar que os pais tinham razão: a profecia negativa que deu certo! Dê feedback com amor: corrigir sim, educar sim, humilhar e rejeitar, NÃO.
  • As crianças precisam de limites, e não de desamor e constrangimento. Uma educação que privilegia a auto-estima saudável dá atenção às reais necessidades da criança.

Faça programas culturais com seus filhos: veja filmes, peças de teatro, competições esportivas, concertos e exposições. Oriente-os para a importância desses eventos. Ouça as opiniões deles para saber o que eles gostam. Estimule-os a participar de grupos esportivos, escolherem o esporte que querem praticar. Prestigie-os.

  • Leve seu filho com você a uma livraria; ajude-o a escolher um livro, contar o que leu. Forme uma biblioteca que sirva também como fonte de consulta.
  • Leve para casa jornais e revistas. Comente as notícias em casa.
  • Leia histórias para os filhos.
  • Frequente as reuniões da escola, leia as redações que seus filhos escrevem. Participe, integre-se!
  • Reserve pelo menos duas horas por dia ou os finais de semana para estarem juntos. Preste atenção no que eles dizem, dê-lhes chance de expressar seus sentimentos e necessidades. Quando conversarem, olhe-os nos olhos. Se for explicar algo, fale com clareza, dê exemplos, pergunte se eles entenderam. Seja paciente com o ritmo de aprendizagem de cada um.
  • Dê a eles um gravador para que se acostumem com a própria voz. Há livros infantis com exercícios para melhorar a dicção e a articulação. Faça esses exercícios com eles
  • Brinque, permita-se voltar a ser criança.
  • Procure entender o mundo deles. Utilize a empatia.
  • Se eles falarem, corrija-os com a forma correta. Mas não na frente de estranhos.
  • Receba os amigos dos seus filhos em sua casa. Só assim você poderá saber como eles se relacionam na rua e na escola e ajudá-los nas relações interpessoais.
  • Estimule-os a participar de peças de teatro para se desinibirem e se conhecerem melhor. Sem falar no treinamento de comunicação em grupo.
  • Tenha gestos, atos e palavras  coerentes. Os pais são referências importantes para os filhos.
  • Primeiro, trabalhe a sua autoestima. Quem respeita e gosta de si mesmo tende a transmitir confiança e credibilidade.
  • Busque a competência comportamental/emocional. Lapidar as próprias arestas é necessário para a melhor comunicação com os filhos.
  • Trate seus filhos com respeito e eles farão o mesmo com outras pessoas.
  • Permita que as crianças perguntem, questionem e tirem suas próprias conclusões. Estimule neles o raciocínio e a reflexão.
  • Se descobrir que errou ou foi injusto, peça desculpas.
  • Não minta para as crianças. Diga a elas como está se sentindo.
  • As crianças precisam saber que os adultos não são mitos nem heróis, mas seres humanos que podem sentir dor. Crianças perceptivas e atentas conseguem ler no nosso corpo o que falseamos por meio da fala.
  • Não seja irônico. O sarcasmo desqualifica o outro e cria animosidades.
  • Não chantageie nas comunicações com seus filhos.
  • Diga a eles como você os vê. Veja se a imagem coincide com a que eles pensam transmitir a você.
  • Estimule-os a ampliar os próprios limites. Se eles temem algo, aceite o medo deles e ajude-os a vencer a insegurança. Confesse que às vezes você também sente medo, mas nem por isso deixa de fazer o que é preciso.
  • Estimule a independência de pensar e agir. Procure apoiá-los quando eles se sentirem frágeis para alçar o próprio vôo.
  • Numa discussão, dê espaço para a criança argumentar. Os filhos aprendem com os pais que a discordância não é uma ofensa pessoal, mas que o entendimento é possível apesar das diferenças individuais.
  • Procure amar seus filhos incondicionalmente. Tendemos a conviver melhor com espelhos que ressaltem as semelhanças. Em muitos casos, o diferente afasta, agride e desestabiliza o que já está cristalizado internamente.
  • Se seu filho faz algo que mereça elogios, não os poupe.
  • Demonstre o seu afeto. Alimente a criança com palavras de carinho. Diga-lhe quanto ela é importante para você. Se você expressar claramente seus sentimentos, a criança aprenderá que não tem do que se envergonhar das próprias emoções.
  • Procure saber como seus filhos o vêem. Como uma pessoa temida ou respeitada? E como eles se sentem na sua presença? Como reagem quando você fala? Esses dados irão ajudá-lo a fazer uma autoanálise da sua atuação como pai e cidadão.
  • Procure saber quem são seus filhos, o que eles pensam, sentem e desejam. Do que eles gostam e quais são as suas aspirações e frustrações. Ouça-os com interesse. Há muito que aprender com crianças. Normalmente suas idéias não estão cristalizadas e nos ajudam a reavaliar nossas próprias crenças e valores.

Nada garante que essas sugestões irão transformar nossos filhos em bons comunicadores, mas se a metade delas forem aceitas e praticadas, eles se sentirão amados e autoconfiantes.

Compartilhe com seus filhos o que você tem de melhor, pois é isso que eles levarão pelo resto da vida: a ternura, as conversas, a sensibilidade, a cumplicidade, o companheirismo, o abraço, o afeto, a troca, a alegria e a possibilidade de uma comunicação livre, onde cada um se apresenta sem máscaras, sem mordaças e sem medos. Afinal,seus filhos só têm uma infância!

*Título adaptado de uma frase de Regine Brett  – 45 lições que a vida me ensinou.